VARÃO E VAROA, ESTAMOS NO SÉCULO XXI!


Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir.
Lucas 15.1

É inegável que o cristianismo contemporâneo vive a crise da relevância. Os novos críticos do cristianismo não se cansam de dizer que o discurso dos cristãos cheira naftalina, é tão antiquado, fora de moda e irrelevante. Para ilustrar esse fato, lembro-me de que, há poucos dias, um colega da USP, sabendo que sou cristão, se aproximou de mim e, sem rodeios, perguntou-me: “Por que muitos evangélicos falam tão esquisito? Eles chamam uns aos outros de varão e varoa! Abusam dos arcaísmos! Usam expressões tão ultrapassadas que às vezes me sinto nos dias de Olavo Bilac!” Dureza, não?! Expliquei que muitas das versões bíblicas que as pessoas leem são muito antigas, e, por esse motivo, acabam trazendo o vocabulário delas para o dia a dia. “Que bizarro!”, disse meu colega. E incomodado com isso, perguntei: “Por que bizarro?”. Ele prontamente me respondeu: “Porque isso assusta qualquer um! É uma linguagem muito distante da realidade!”. Nessa hora, infelizmente, tive que concordar com ele. Nossa linguagem, às vezes, é tão descontextualizada que, em vez de atrair, assusta os publicanos e pecadores de nossos dias.

O que acho mais interessante no texto de Lucas 15 é o fato de que os publicanos e pecadores não se aproximaram de Jesus para pedir um milagre, uma bênção. Pelo contrário, se aproximaram dele só para ouvi-lo. Isso aconteceu porque a pregação de Jesus era empolgante, o Mestre era verdadeiramente relevante. Veja a bela imagem que Lucas nos oferece: o Filho de Deus, sentado à mesa com publicanos e pecadores, completamente atraídos pelo seu discurso. Ou seja, Lucas mostrou que Jesus era interessante não apenas por causa dos milagres que fazia, mas principalmente por causa de seu pensamento, de sua capacidade de ler o coração dos homens e de expor os desígnios de Deus, com ousadia, sabedoria e relevância.

Ouvindo algumas pregações aqui e acolá, em canais de TV e em igrejas, percebo que muitos dos discursos e pregações de nossos dias estão muito distantes de ser comparados às pregações empolgantes de Jesus. Acredito que uma das razões seja a nossa incapacidade de ler nosso tempo, agravada pela pobreza de nossa leitura dos desígnios de Deus, expressos nas Escrituras. Quando digo “ler nosso tempo”, digo “ler as pessoas de nossos dias”. Jesus entendia o homem de seu tempo como ninguém. Ele compreendia as questões que o homem de seu tempo fazia e, por isso, respondia de forma relevante aos publicanos e pecadores de seu tempo.

Em contrapartida, nossa leitura do varão hodierno — ops! do homem de hoje! — é vergonhosa. Não entendemos seus pensamentos, não entendemos suas questões. Às vezes, tenho a impressão de que a maioria de nós está falando para homens do século XIX, e não só com uma linguagem oitocentista, mas — o que é pior ainda — usando uma lógica e um tipo de reflexão e postura intelectual que é típico do universo espiritual oitocentista.

A verdade é que alguns sermões de hoje se tornam irrelevantes porque apenas respondem às perguntas que o homem do século XIX fazia. São sermões tão distantes do século XXI, que dão sono! Cá para nós, às vezes me pergunto se isso acontece por causa do delay de publicações das obras teológicas oitocentistas, que são publicadas hoje em dia como “grandes lançamentos do ano”. Sinceramente, não sei. O que sei é que, se queremos proclamar o reino de Deus para o nosso tempo, temos de nos livrar de nossas lentes oitocentistas. Precisamos ler o homem de nossos dias, com lentes apropriadas para o século XXI.

O homem de hoje é um homem sem transcendente, ou melhor, um homem deslumbrado com o imanente, que passa a ser tomado como se fosse transcendente. Em outras palavras, alguém que trocou a adoração a Deus pela veneração ao carro do ano, ao último modelo de celular, de notebook, de TV e por aí vai. Por isso, as megaigrejas estão tão cheias. E garanto que não é pela relevância do discurso, mas pela exploração da angústia do homem moderno. Este vai à igreja não mais para simplesmente adorar, mas para clamar a Deus por um carro novo, uma casa maior, mais dinheiro, mais sucesso, mais poder. A tara por essas bênçãos materiais mostra o quanto somos niilistas, vazios, sem um sentido ulterior para vida, que seja superior a tudo o que está preso ao tempo e ao espaço.

Não precisamos de sermões que alimentem nossa angústia niilista. Precisamos de sermões que nos conscientizem de nossa real situação. Sermões que revelem as novas faces de nossas depravações e desesperos. Sermões que sejam resultado de uma exegese bíblica cuidadosa e contextualizada, e, ao mesmo tempo, conscientes de que nossa inteligência e compreensão devem ser submetidas à luz do Espírito, o único que nos permite ver o Jesus supracultural, supratemporal, preexistente, Filho de Deus, Senhor do tempo, da história, da terra e do céu. Sermões que nos sirvam como espelhos para mostrar a face sofrida e angustiada de nosso coração, tão longe da busca pelo transcendente e tão entregue à busca exacerbada por bens transitórios. Só assim haverá conversão genuína, adoração verdadeira, pregação relevante. Só assim publicanos e pecadores de nosso tempo deixarão de se assustar com esse nosso esquisito jeito oitocentista de ser, e se aproximarão de nós para conhecer o Jesus do século XXI, que, paradoxalmente, em nada deve ser menos atraente do que o Jesus do século I.

24 comentários:

Luis Henrique disse...

Faltou o lugar pra colocar a assinatura Jonas!

Kay Miragaia disse...

Nossa, gostei muito. Incrivelmente eu pensei nisso quarta-feira..em como a maioria dos sermões que a gnt ouve estão se afastando cada vez mais da realidade..em como quase ninguém mais "saca" nossa época, nossos anseios, nossas dificuldades, nossas dúvidas..e em como esse crentês-do-século-passado já não só é bizarro para os "de fora", mas como também tem começado (há muito tempo) a ser bizarríssimo pra nós (ou pelo menos pra mim). Sinto falta dos "sermões que nos sirvam como espelhos para mostrar a face sofrida e angustiada de nosso coração.."

Rafa (Strider) disse...

É impressionante ver como o "evangeliquês" é excludente. Há segmentos da sociedade (e até mesmo tribos urbanas) que se utilizam de um vocabulário especial, exclusivo, o qual caracteriza quem pertence e, ao mesmo tempo, quem não pertence ao grupo. Assim, é fácil identificar uma determinada tribo urbana ou um advogado conversando com outro, da mesma forma que é fácil perceber que você não faz parte daquele grupo. Infelizmente, o "crentês" tem esse efeito sobre as pessoas e torna-se excludente e bizarro, ou bizarro porque é excludente. Lindo post, Jonas!!

Vitor Lima disse...

Como sempre, muito bom! Pr., quero pedir autorização pra repassar esse texto aos demais líderes de minha igreja por e-mail, pode ser?

Jonas Madureira disse...

Manda ver, Vitor! Abração!

Leonardo Gonçalves disse...

Fala Vaso!

Vaso, esta leitura do varao hodierno tocou-me tao profundamente que gostaria de solicitar autorizaçao para publicá-la no Púlpito Cristao.

Permitirás? kkkk

PS: Infelizmente muita gente ainda nao se deu conta de que o mundo nao fala "almeidês".

Grande abraço,

Leonardo.

Jonas Madureira disse...

Fala, Leo! É claro que autorizo, meu amigo! Parabéns pela virada radical do Púlpito Cristão! Um abração!

Pastor Marcello Matias disse...

ótimo blog... ótimas postagens... vou divulgar no meu... me siga também...

http://prmarcello.blogspot.com/

Helvecio.p disse...

Querido pastor o raciocínio desperta mas não corresponde a verdade completa.Gostei da abordagem e da lucidez de trazê-la a tona. Mas a coisa não é tão simples assim. Alguns crentes de algumas igrejas o fazem, para demarcar a linguagem pornográfica e rasa que usavam anteriormente.

O que pode contagiar as pessoas são as idéias, mas nem sempre positivamente, ao constatar que essas idéias e posturas desnuda a sua inutilidade haverá inimigos declarados ao crente e não será pelo vocabulário. Só uso o linguajar das pessoas a minha volta quando estou brincando, por pura socialização, e olhe que eu brinco pouco, embora conviva com pessoas de todas as classes sociais, níveis educacionais, idades e gêneros ( sou professor e até recentemente dava aulas para professores também ). Quanto as pregações, há pregadores e pastores obrigados por função a pregar. Obviamente os últimos, independentemente da denominação são menos bem sucedidos.

Bem é um começo da discussão, mas a culpa não é do crente em não dar conta de agradar o mundo por conta de seu vocabulário. Aliás o mundo impõe a todos e até ao crente o pior vocabulário e os piores valores.

P.S. É bom lembrar ao mundo, em tempos de "opções sexuais" é bom lembrar que há varão e varoa" (rs...rs...rs...)

Se achar tempo visite o meu blog no link:

http://mensagemdopregador.blogspot.com/2010/09/o-filho-do-homem-por-que.html

Gostaria de ver seus comentários lá. Obrigado e Paz.

diego marcell disse...

comentei este post no passado. rs

depois corrige se possivel.
abs

Anônimo disse...

Recomendo a leitura de Timothy Keller (Redeemer Church - New York City, NY). É um dos poucos que alem de fazer uma leitura inteligente da nossa real condição, entrega uma mensagem contextualizada ao homem contemporaneo. (Leia Counterfeit Gods)
Cida Mattar

Alê Carvalho disse...

Jonas,
seu texto é inspirador, preciso e edificante. Parece q estamos em uma mesa tomando café e conversando sobre as mesmas coisas...realmente há uma afinidade muito forte entre sua fala e a nossa ..rsrsr...(fonte de sicar e a esperança)...espero tomarmos esse café juntos logo!!!
alessandra carvalho

Geraldo B. A. J. disse...

Olá Jonas.
Participei, como ouvinte, da sua palestra sobre Igreja Emergente (aqui em Recife, na última semana de setembro). Quero ressaltar a relevância do assunto bem como parabenizá-lo pela abordagem do mesmo.
Gostaria de saber o link para fazer o download dos slides, pois entro no site da Vida Nova e não encontro sequer alguma informação sobre o Congresso.
Quanto a publicação "Varão e varoa..." quero dizer que achei muito relevante, especialmente por chamar a atenção dos cristãos para o fato de que eles vivem em em época completamente diferente daquela que, muitas vezes, é admirada como sendo uma espécie de "período ideal". Você faz referência ao "oitocentismo", eu iria um pouco mais longe e, como cristão reformado (vai aí uma crítica), retrocederia ao período do Parlamento inglês do século XVII(os puritanos), ao que podemos chamar de "setecentismo". O fato é que, como você escreveu, o "cristianismo contemporâneo vive a crise da relevância". Seu texto me ajudou bastante a fortalecer a compreensão da necessidade de tornar a mensagem cristã atual e relevante ao homem do século XXI.

Parabéns.

Jonas Madureira disse...

Cida, Alessandra, Pr. Marcello, Helvecio e Diego,

que bom que vocês curtiram o texto. Obrigado também pelas sugestões de leitura e observações. Tudo isso torna esse espaço cada vez mais rico! Sejam sempre muito bem-vindos, seja para concordar, seja para discordar!

Um forte abraço.
Jonas

Jonas Madureira disse...

Olá, Alessandra!

Não tenho dúvida de que a Fonte e a Esperança têm muita afinidade! O Gui é uma mente privilegiada. É um cara que toda a igreja brasileira deveria parar para ouvir. Também espero tomar café junto com todos por aí. Por aqui já tomei café com o Igor... rs Gente boníssima! Mande um forte abraço para todos!

Até breve!
Jonas

Edgar disse...

Olá Jonas, faz um tempo que não faço nenhum comentário aqui em seu blog, mas pelo que vejo está a cada dia melhor, com reflexões muito edificantes e conflitantes.... que bom.
Um grande abraço e estarei presente aqui vendo as novidades. Um abração

Juber Donizete Gonçalves disse...

Olá Jonas, sou o Juber, diretor do Ibadetrim, onde sua participação em nosso Simpósio, enriqueceu o evento. Gostei muito da postagem, se você me permite vou postá-la em meu blog "Cristianismo Radical".

Um agrande abraço.

Jonas Madureira disse...

Permitido, rev. Juber! Seja sempre bem-vindo por aqui!

Abraços!

Denis Souza disse...

Olá Jonas!

Já o conhecia de nome, este foi o primeiro texto seu que lí. Parabéns, minha alma tranquiliza-se por saber que ainda temos alguns "gatos - pingados - pensantes" em arraial evangélico. Sem vacilo, posso afirmar que sua formação filosófica lhe credencia para produzir tais reflexões. Seria bom se outros olhos não-Tertulianos, enxergassen esta necessidade de aproximação. Envio-lhe, com carinho, um post escrevi para o sitio da Igreja Metodista.

http://ed.metodista.org.br/conteudo.xhtml?c=75

Grande abraço,

Denis Souza.

BLOG KAIROS disse...

Jonas, para começar, eu gostaria de dizer que o substantivo "varoa" não é fundamentado na nossa lingua, portanto, é uma palavra vulgar e inexistente de acordo com a nossa linguagem. neste caso, o feminino de varão é matrona ou virago; esta última não se aplica às mulheres cristãs por conta de outro contexto. Outra coisa que quero dizer é que concordo contigo em parte em se tratando dessa linguagem antiga mas que não deveria influenciar na evangelização de pessoas. Elas devem aprender sobre o genuíno evangelho independentemente da linguagem usada por cada um para que não tenhamos uma geração doente e frustrada com ensinamentos errôneos, como você mesmo citou em seu texto.

BLOG KAIROS disse...

O que eu quero dizer com tudo isso, Jonas, é que não é a Palavra de Deus que tem que se enquadrar a nós e nós que precisamos nos adequar a Ela, porque a Palavra do Senhor é viva para transformar vidas.
Valeu, cara.
Abração.

Thiago Mafra disse...

Bem escrito,me atrevo a dizer que você utilizou o conceito de Niilismo do Niezstche,certo? E também utilizou o termo "supra" baseado na "Segunda consideração intempestiva: sobre a utilidade e os inconvenientes da história para a vida",também do Niezstche,quando ele fala do homem suprahistórico e por aí vai...Se a minha leitura estiver certa,o que entendo como perigoso no seu texto é até que ponto nós devemos adaptar o Jesus do séc. I ao Jesus do séc.XXI. Concordo com o Blog Kairós, nós é que devemos nos adaptar a palavra,em relação a linguagem, é frescurite de crente ficar chamando de varão e varoa rsrs porém não devemos adulterar a mensagem do evangelho para atrair as pessoas.

É bom saber de cristãos envolvidos com filosofia,tira esse estigma que crente é alienado e que a filosofia produz ateus.

Forte Abraço!

Teófilo disse...

Uma vez, vendo o seriado "Cidade dos Hemens", a professora pediu que os alunos da Comunidade explicassem o período Napoleônico, ninguem sabia explicar como ela queria, até que o "Acerola" levantou e deu uma explicação na linguagem do morro, dizendo que o tal Napoleão era um traficante que tinha tomado a boca dele, mas virou olhão e cresceu pra cima das bocas em volta, caiu pra dentro foi na pista sem "migué" "trôco" "cuns" "Alemão", parece bobo e até triste, mas todo mundo entendeu. enquanto não conseguirmos ter umpaísonde todos tenham o domínio tanto da lingua culta quanto popular, quem se aventurar à pregar, terá que se adaptar ao público a que fala, tendo esse dom de "Linguas estranhas", ou seja conseguir se fazer entender por vários públicos.

embaixador de cristo disse...

a paz jonas.
meu bem que o irmão da minha igreja falou vc é um cabeção de inteligencia graças a Deus todo poderoso e onisciente........infinito em glorias e misericordia e de santidae..........!!
pô meu isso é verdade o sergio da nossa igreja ele falou tambem isso na escola dominical!!
meu vc esta de parabens Deus te abençoe!!!!!!!!
(a expressão cabeção é de inteligente. ta não liga não hein brincadeira...)
uma observação ele te viu pregando no betel.ok fica na paz amem.um abração.
ass:kevyn

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